28/08/2026 às 15:13

Projeto Amamentar - Deborah

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3min de leitura

Sou pediatra e a amamentação sempre foi um tema muito especial para mim. Durante anos, estive do outro lado: incentivando, orientando e, principalmente, tentando acolher as mães, independentemente de como cada história de amamentação terminasse. Quando minha filha, Olivia, nasceu, eu sabia que amamentar poderia ser desafiador e tentei não romantizar esse processo. Ainda assim, eu não imaginava o quanto ele me transformaria.

A Olivia nasceu pequena e, desde o início, tivemos muita dificuldade com a sucção. Procurei ajuda, tive consultoria de amamentação, fono, ouvi repetidas vezes que era preciso apenas esperar que ela crescesse… mas, como mãe e também como pediatra, eu sentia que havia alguma coisa que não estava indo bem.

Foram mais de 40 dias translactando em praticamente todas as mamadas, complementando com fórmula e vendo minhas tentativas de ordenha não funcionarem como eu esperava. Aos poucos, comecei a duvidar de mim. Achei que meu corpo não produzia leite suficiente, que eu não era capaz de amamentar. E o que eu mais queria viver com a minha filha começou a se tornar um martírio.

Eu não gostava de amamentar. Às vezes sentia raiva daquele momento — e, logo depois, uma culpa enorme por me sentir assim.

Até que um dia eu chorei e disse: “Eu vou desistir.” Dei uma mamadeira para minha filha e pensei que, se ela não quisesse mais o peito, seria aquilo. Mas dizer isso doía demais.

Foi quando uma amiga muito querida, a Luísa, literalmente pegou na minha mão e disse que me levaria a uma profissional em quem confiava. E aquele gesto foi o meu respiro. Finalmente descobrimos que a Olivia tinha questões importantes de tensão orofacial e língua presa que ainda não haviam sido identificadas. Fizemos o tratamento necessário, incluindo a frenectomia, iniciamos acompanhamento frequente com fonoterapia e, pouco a pouco, tudo começou a mudar.

Hoje, perto dos três meses, eu amamento minha filha. Ela mama bem, se sacia, ganha peso, e eu finalmente consigo enxergar que meu corpo sempre foi capaz de produzir o leite de que ela precisava. Junto com ela, nasceu também a minha confiança.

E aquilo que um dia me trouxe angústia hoje é um dos momentos mais leves do meu dia. Olhar para a Olivia no meu colo, vê-la sugando e ouvir sua deglutição me traz uma alegria e uma gratidão difíceis de explicar. A amamentação deixou de ser uma prova que eu precisava vencer e se tornou um lugar de encontro entre nós duas.

Essa experiência também transformou a pediatra que existe em mim. Hoje cuido da minha filha sendo mãe e pediatra ao mesmo tempo, mas ela tem me ensinado muito mais do que qualquer livro poderia ensinar sobre amamentação, vulnerabilidade, persistência e, sobretudo, acolhimento.

Poder registrar agora a minha filha no meu colo, justamente vivendo algo que nos custou tanto conquistar, tem um significado imenso para mim. É mais do que um ensaio de amamentação. Seria guardar para sempre a imagem de algo que, em determinado momento, eu realmente achei que não conseguiríamos viver.

Texto : Deborah

Agosto 2026




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